Ex.mo(a) Sr(a),
Gostaríamos de pedir a sua ajuda para a situação que afecta
muitos cidadãos da Sérvia e Montenegro que vivem no estrangeiro.
Em 1991 e 1992, mesmo no início da guerra na região da ex-Jugoslávia,
uma vaga de aproximadamente 500.000 jovens com habilitações
superiores deixaram o país. Um estudo recente feito pelo
Ministério da Imigração da República Sérvia diz que existe um
total de 12 milhões de sérvios no mundo dos quais 4 milhões vivem
fora da região da ex-Jugoslávia.
Os jovens que se encontravam no estrangeiro e não compareceram
ao serviço militar entre 1991 e 1999 são neste momento personae
non gratae na Sérvia e Montenegro. Não podem regressar ao seu
país sem correrem o risco de serem presos. Na continuação desta
carta iremos explicar as razões para esta situação insuportável.
Segundo as leis da ex-Jugoslávia, todos os cidadãos recrutados
que se encontravam no estrangeiro deveriam ter pedido uma
autorização especial do Chefe Supremo das Forças Armadas. No meio
do caos que existiu durante esses anos era difícil, se não mesmo
impossível, pedir essa autorização. Isto levou estes jovens a
deixar a Jugoslávia sem a autorização das Forças Armadas.
Após a assinatura dos acordos de Dayton em 1995 e de Kumanovo em
1999, a assembleia da então República Federal Jugoslava aprovou
uma amnistia para os jovens que se recusaram a participar na guerra.
Esta amnistia aplicou-se aos que não se apresentaram para o
serviço militar, aos que negaram ser incorporados em reservas
militares e aos que desertaram das unidades militares durante a
guerra. Porém, esta amnistia significava apenas um perdão por não
se terem apresentado. A obrigatoriedade de fazer o serviço militar
permanecia inalterável.
Durante o bombardeamento da NATO contra a Sérvia em 1999, o
regime de Milosevic aumentou o limite de idade para fazer o serviço
militar de 27 para 35 anos, para se assegurar que ninguém escapava.
Antes disto, todos os jovens com 27 anos passariam automaticamente
à reserva territorial. Com esta nova lei, muitos cidadãos que se
encontravam (e ainda encontram) no estrangeiro ficariam
impossibilitados de regressar ao seu país.
Durante a guerra de 1991 a 1999, os jovens que deixaram a
Jugoslávia e foram para o estrangeiro estudaram, arranjaram
empregos, constituíram família. Tornaram-se membros respeitados
das sociedades em que se integraram. Regressar à Sérvia
significaria abandonar empregos, família, créditos, bolsas,
estudos, etc. durante quase um ano.
Segundo o artigo n.º 305, a lei da Sérvia e Montenegro deveria
assegurar um melhor tratamento seus cidadãos com dupla
nacionalidade. Infelizmente, na prática, não é assim. Na maioria
dos casos, a aplicação do princípio da dupla nacionalidade é
negado pela parte do Alto Comando das Forças Armadas. Qualquer
tentativa de rejeição da nacionalidade de origem era negada
baseada no princípio de que esse cidadão ainda não tinha cumprido
o serviço militar. Isto deixou muita gente numa situação da qual
não podiam sair.
No final de 2004 o actual ministro da defesa, o Sr. Prvoslav
Davinic, anunciou que iria resolver o problema dos recrutados que
viviam no estrangeiro. Segundo este, o Ministério da Defesa ordenou
à polícia que parasse de prender os cidadãos que não tinham
feito o serviço militar. Além disto, o ministro anunciou que tinha
sido adoptada uma legislação especial para que o problema se
resolvesse definitivamente: os recrutados apenas teriam que
contactar as suas embaixadas nos países em que viviam, entregar um
pedido para adiar o serviço militar e, como anexo, qualquer
comprovativo que justifique a sua residência no estrangeiro (certificado
de emprego, bolsa de estudos, créditos, etc.). O ministro afirmou
ainda publicamente que aqueles que cumprissem 35 anos de idade no
estrangeiro passariam automaticamente à reserva sem fazer qualquer
tipo de serviço militar.
Este anúncio foi divulgado em todos os meios de comunicação
nacionais e no site do Ministério da Defesa. Isto provocou
reacções muito positivas entre os cidadãos da Sérvia e
Montenegro a viver no estrangeiro e levou muitos deles, que não iam
ao seu país há 13 ou 14 anos, a pensar que o poderiam fazer.
No entanto, logo a seguir foi recebida a notícia de que tinham
sido presos dois cidadãos sérvios na fronteira com a Hungria. Os
seus passaportes foram confiscados e foram obrigados a pagar multas
de 3.000 euros.
Após isto, foram recebidas notícias de que praticamente todos
os pedidos feitos em embaixadas da Sérvia e Montenegro (segundo o
procedimento proposto pelo Ministério da Defesa) foram recusados
apesar das garantias do ministro de que isto não aconteceria. As
embaixadas cobravam cerca de 50 só para aceitar o pedido e mais
50 para a resposta, mesmo que fosse negativa.
Como um grupo de cidadãos da Sérvia e Montenegro, escrevemos
uma carta ao ministro Davinic à qual ele respondeu, através de um
curto e cru comunicado de imprensa que "nada tinha prometido".
As autoridades militares, no entanto, continuavam a efectuar
prisões nas fronteiras da Sérvia e Montenegro. Os nossos pedidos,
submetido segundo as regras do Ministério da Defesa, continuavam a
ser indiferidos sem explicação.
Aproveitamos esta oportunidade para lhe pedir ajuda porque
acreditamos que a situação actual é completamente absurda. Como
na Sérvia e Montenegro não existe nenhuma instituição que nos
possa ajudar, pedimos-lhe que nos ajude a encontrar uma solução
razoável para este problema. Pedimos também que fale neste assunto
caso se encontre com representantes das autoridades da Sérvia e
Montenegro.
Acreditamos que toda a gente tem o direito de visitar a sua
família e os seus amigos. Este tipo de iniciativa de reconstrução
de confiança já existe inclusivamente em países como a Coreia e o
Chipre. Acreditamos que chegou finalmente a altura de resolver
definitivamente esta questão.
Esperamos que nos ajude a encontrar uma solução para esta
situação.
Atenciosamente,
Um grupo de cidadãos expatriados da Sérvia e Montenegro
Este grupo mantém o site http://www.dijaspora-vojna-obaveza.info
e tem membros nos seguintes